É sempre do mesmo jeito: você está batendo papo com alguém novo, vem a pergunta:

– E aí, você trabalha com que?
– Sou tradutora.

Opção 1: “Ah, você traduz livros”?

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Tradução literária é um dos muitos nichos da tradução. Em geral, são tradutores freelancer, que trabalham em casa, contratados por obra e por uma editora, daí o nome tradução editorial. Esses profissionais costumam cobrar por lauda, tem prazos de entregas parciais e, até onde sei, não veem muitas vantagens em usar CAT Tools (programas de memória de tradução). A tradução literária exige do tradutor um amplo vocabulário, linguagem rebuscada e cultura geral ampla – imagina traduzir as gírias de um livro escrito para adolescentes, por exemplo? Uma boa referência online sobre esse campo é o blog Ponte de Letras, organizado por quatro tradutores feras no assunto. Ano passado a ABRATES fez uma campanha bem bacana sobre a importância de se colocar o nome do tradutor nos livros – se você reparar, isso não é uma prática muito comum.

Quer ser tradutor literário? Leia bastante, esteja familiarizado com o contexto do mercado de editoras e se prepare com cursos especializados. A gradução da Universidade de Brasília (UnB) oferece duas cadeiras sobre tradução literária: de inglês para português e o contrário. Quando eu fiz essa matéria, tive que traduzir um conto cujo personagem se chamava Aristídes, sendo que a esposa dele o chamava de Tide. Estava passando pro inglês e me incomodando com esse apelido que a mulher usava com ele, resolvi que ela o chamaria de “Honey” em inglês. Sorte a minha. Se eu mantivesse o Tide, em inglês a mulher dele o chamaria de Maré. “Maré, meu benzinho”, já pensou?

 

Opção 2: “Você faz legendas de filmes?”

tumblr_ngnl2hv1371taqj7no1_500Tradução de áudio-visual é mais uma opção do nosso meio. Esse profissional tem que ter boa habilidade de escuta, porque nem sempre recebe a transcrição ou script do áudio. Tem, também, que trabalhar com a restrição do espaço da legenda, pois o olho humano só é capaz de ler um determinado número de caracteres por segundo. Muita gente atualmente faz legendas por hobby para os seriados que acompanha e disponibiliza na internet, mas tradutor/legendador também é uma profissão de verdade. Você pode trabalhar em casa ou como funcionário de uma empresa especializada. Também acredito que o pessoal de áudio-visual não faça uso de CAT Tools, pois em geral trabalham com um programa específico de legendagem, onde é possível traduzir e demarcar os pontos de entrada e saída da legenda da tela (outra função desse tipo de tradutor). Há cursos específicos para esse ramo, até mesmo online. A Dispositiva é uma das principais empresas do ramo e está sempre anunciando cursos e oportunidades.

 

Opção 3: “Você traduz o Oscar?” ou a variante “Você quer trabalhar na ONU?”

1386947567_383632_1386948441_noticia_normalSobre esse ramo, já falamos bastante aqui no blog. Os tradutores de língua falada são chamados de intérpretes. Intérpretes falam, tradutores escrevem. Daí a necessidade de concentração, talento para oratória, boa escuta e organização multitarefas desse profissional. Os intérpretes costumam trabalhar traduzindo palestras, conferências e até pequenas reuniões. Muitos trabalham com TV, como na transmissão de eventos como o Oscar, anúncio do novo papa, posse de presidentes, lutas de UFC. Outros trabalham em órgãos que demandam bastante trabalho de interpretação, como as Nações Unidas, o Parlamento Europeu, a Organização dos Estados Americanos e muitos outros. Outro tipo de intérprete é o de língua de sinais, que estão cada vez mais presentes em importantes eventos hoje em dia. Em geral os intérpretes são autônomos, tem empresa própria e conciliam suas atividades com a de tradutor.

Você gosta de vídeo-games? Já percebeu que quase sempre existem versões em português? Adivinha quem traduz. Sim, localização de jogos é mais um nicho da tradução. É um ramo relativamente recente, que vem crescendo bastante no mercado. Há muitos cursos especializados disponíveis e, novamente, o tradutor pode trabalhar em casa ou em uma empresa de jogos, in house

Tradução técnica é outro ramo bem popular. Muita gente se especializa em tradução jurídica, tradução médica, tradução de metalurgia. Vai ao seu gosto. Esse tipo de profissional, sim, usa e abusa das CAT Tools, porque acaba pegando termos repetitivos, cuja tradução esse tipo de programa armazena. Outra grande funcionalidade utilizada por tradutores que costumam traduzir um mesmo tipo de textos é a facilidade que esses programas oferecem para produção de glossários. 

E finalmente, existem os tradutores juramentados ou tradutores públicos. São um tipo de profissional específico, que foram aprovados em concurso público e tem vínculo com a junta comercial de cada estado. O tradutor juramentado é o único que oferece traduções com fé pública, ou seja, que são reconhecidas como autênticas em juízo. Em geral são contratados para a tradução de documentos como históricos escolares, diplomas, certidões, contratos, procurações e tudo o mais necessário. Cobram segundo preço tabelado de cada junta e entregam suas traduções em papel timbrado específico.

Para todos os tipos de tradutores, um feliz 30 de setembro, dia de São Jerônimo, aquele santo homem que traduziu a Bíblia e fez a nossa profissão bem famosa.

 

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Uma cliente minha que sempre me pede traduções para o português recentemente me passou um trabalho de versão para o inglês. Eu disse “pois não, vai sair o habitual X + 30%, porque do português para o inglês é mais caro”. “Nossa, não imaginava que seria tanto”, ela disse – mas aceitou e pagou.

Deve ser porque sabe que eu levo as traduções a sério e meu serviço vale o preço. Já que não é um frila.

Posso explicar de um modo mais fácil. Comida japonesa, por exemplo, adoro. É caro para o meu orçamento, mas sempre que me dá na telha, me presenteio esse luxo. Posso comer do quilo do restaurante baratinho, posso comer do bufê mais em conta e posso ir no meu favorito, que além de oferecer comida japonesa fresquinha ainda sempre apresenta receitas inusitadas. Pago pelo que quero. Simples assim.

Ao meu ver, a principal dificuldade do nosso mercado de tradução é a nossa falta de postura profissional. As pessoas não levam a tradução como um trabalho de fato – tem gente que faz de hobby, em meio período, eventualmente. Todo mundo sabe disso, até os vendedores de CAT Tools oferecem planos para tradutores “eventuais. Estou para ver outra profissão com status parecido. Mas é essa a realidade, fazer o que? Fazer a sua parte.

Não trate como frila a profissão que paga suas contas. Venda-se bem. Mostre seus diplomas, sua experiência, seu conhecimento, seu investimento pessoal. O curso de inglês mais mixuruca te exigiu tempo, esforço e dedicação, então não se comporte como um Google Tradutor humano. Quem quer passar o texto na tradução não vai se dar ao trabalho de pagar alguns centavos a mais para você fazer o mesmo. Bom, talvez algumas agências sim.

Mude a sua postura pessoal. Enquanto você tratar suas traduções como frilas e se posicionar nas redes sociais dessa maneira – “alguém sabe de frilas de tradução e revisão? RT dos broders pls” – você vai conseguir trabalho eventual de valor depreciado. É uma resposta natural à imagem despreocupada que você está passando. Então não reclame que as coisas nunca acontecem de verdade.

Defenda sua profissão. Nossa fama já não é das melhores, cada vez mais precisamos de gente profissional no nosso meio. Trabalho sempre tem para todo mundo que se dedica e ganha o respeito dos colegas. É uma profissão com muita ênfase em indicação, pense nisso. Associe-se, frequente os congressos e eventos. Catequize seu cliente, explique porque o valor tem que ser maior, porque naquele prazo não tem como. Não se venda por menos do que você é.

Quer ser tradutor e ganhar dinheiro com isso? Faça por onde.

 

 

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Navegar é preciso, já disse o poeta.

Depois de dois anos nessa vida freelancer e de alguma estabilidade alcançada, decidi me aventurar por outros mares e abri a Solarium. Visita lá que o site ficou lindo, muito obrigada novamente ao pessoal da Design Ideal.

Muito obrigada também a todo mundo que está me ajudando nessa aventura, minha estupenda equipe composta por Pedro Borges, Vanessa Ortega, Paul Sieff, Andrea Moll, Carolina Walliter, Luciana Frias e Nelma Ribeiro. Todos profissionais qualificados para me ajudar com traduções e interpretações de qualidade e confiança.

Mas agora é a busca de novos desafios. É trabalho dobrado em busca de clientes, novos mares, colocar a cara na rua. Não posso dizer que está sendo fácil, mas não falta força de vontade.

Porque somos uma empresa com o diferencial essencial: qualidade. Queremos ser verdadeiros artesãos da tradução: nossos textos vão ser revisados por mais de um profissional, para tudo estar de acordo com um texto original do idioma alvo. A motivação do tradutor não é sempre passar despercebido? Pois então, vamos trabalhar com afinco para que seu texto pareça saído da cabeça de um falante nativo – opa, mas vai ter saído! O Paul é londrino e a Andrea é uruguaia, então nada de tradução tabajara na Solarium. Fique tranquilo.

Isso quer dizer que o falecommarina vai sair do ar? Mas é claro que não! Fica como minha identidade pessoal na web, a Solarium como a identidade corporativa, que tal? Acho mais fácil blogar mais informalmente…

Mas aí você já fica sabendo o que estamos fazendo por aqui.

E vamos nós que o sol nascerá na Solarium.

Com apenas seis anos de idade, Maria Vertkin teve que se tornar a voz de sua família judia russa. Ela era a única que falava inglês bem.

Ela se lembra de ter que traduzir informações médicas para seus pais – uma enorme responsabilidade, especialmente para alguém tão jovem. Em hospitais e clínicas, uma palavra pode ser a diferença entre a vida e a morte. Quando essa palavra é em uma língua que o paciente não fala, os intérpretes com formação precisam preencher a lacuna.

“Se você é uma criança de uma família de imigrantes, você é o intérprete e tradutor de facto“, Vertkin disse à Mashable. “Porque as crianças aprendem muito mais rápido e adquirem a cultura muito mais rápido”.

Mesmo tão jovem, Vertkin compreendeu a ligação entre línguas e sucesso. Como os judeus eram cidadãos de segunda classe e passavam dificuldades econômicas na Rússia, ela e seus pais partiram em busca de uma vida melhor em Israel e, em seguida, nos EUA, renunciando à cultura e à língua que sempre tiveram.

Foi por isso que Vertkin lançou o Found in Translation, um projeto social que oferece certificados de intérpretes médicos e serviços de colocação profissional gratuitos para mulheres bilíngues de baixa renda na área de Boston, Massachusetts e arredores.

A missão é dupla – quebrar as barreiras linguísticas na área de saúde e, ao mesmo tempo, combater a pobreza e a falta de moradia, duas questões que afetam as mulheres (especialmente as não brancas) de forma desproporcional.

Nós as ajudamos a usar suas competências linguísticas e transformá-las em algo comercializável na força de trabalho, que pode tirá-las da linha de pobreza de forma permanente”, diz Vertkin, que também atua como diretora-executiva da Found in Translation.

Uma vida de extremos

Ela entende melhor do que ninguém: não só é uma imigrante da primeira geração de uma família de baixa renda, como chegou a ser desabrigada na época que estava no ensino médio – uma período sobre o qual ela evita conversar. Assim, além do conhecimento que adquiriu dos livros para se tornar assistente social, ela também tem um entendimento pessoal e intuitivo dos obstáculos que essas mulheres enfrentam.

“Há tantos imigrantes e tanto talento bilíngue nas comunidades pobres, [mas] há muitos obstáculos que os impedem de conseguir ultrapassar a barreira da pobreza. [Queria] construir um programa que foca nos pontos fortes e aborda essas deficiências”, diz ela.

A Found in Translation oferece às mulheres bilíngues um curso de 14 horas por semana durante 14 semanas, no qual elas aprendem sobre habilidades que lhes dão trabalhos em hospitais – uma das indústrias com melhores salários disponíveis – em um curto espaço de tempo. As mulheres passam por um treinamento que Vertkin chama de “competências essenciais de interpretação” – tipos de interpretação, código de conduta, padrões de prática, ética e as complexidades do sistema de saúde. Eles também aprendem sobre anatomia, fisiologia e milhares de termos médicos em inglês e em sua língua materna. Também recebem treinamento sobre habilidades gerais, como noções financeiras e redação de currículo.

Depois de 14 semanas e do exame final, começa o trabalho de fato. Sair da pobreza e das ruas não é tão fácil como ganhar um certificado, diz Vertkin. A organização encaminha as mulheres às agências locais (que lhes dão a experiência necessária para trabalhos em hospitais) e que também contratam intérpretes.

Um programa como Found in Translation tem um processo de seleção concorrido – o que faz sentido, pois é feito para encontrar mulheres que são fluentes em pelo menos um outro idioma, além de extremamente motivadas e com habilidades pessoais para serem boas intérpretes. Pelo fato de oferecer treinamento gratuito, serviços de creche e transporte, centenas de mulheres se inscrevem pela internet. A turma mais recente teve 380 candidatas, mas o programa atualmente só acomoda 35 vagas.

Intérpretes médicos profissionais, médicos e enfermeiros estão entre os instrutores dessas várias habilidades. Como intérpretes, as formadas não vão diagnosticar nem dar pareceres médicos, porém elas precisam saber as informações bem o suficiente para que os pacientes possam entender.

Habilidades em demanda

Não faz mal que haja um mercado crescente de intérpretes.

A interpretação de conferências é uma das profissões de crescimento mais rápido dos EUA. De acordo com o órgão de estatísticas trabalhistas do país, o salário médio de um intérprete nos EUA é de US$ 43.590,00 por ano, em Massachusetts é de US$ 58.990,00. Embora a renda possa não vir em forma de salário fixo durante os primeiros anos de um intérprete, essas mulheres ainda ganham salários aos quais não tinham acesso antes.

“Eles voltam para suas comunidades como intérpretes e são capazes de ajudar os pacientes a ter acesso a serviços médicos vitais, podem até salvar vidas”, diz Vertkin.

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As mulheres na sala de estudos do Found in Translation estudam um modelo anatômico.
IMAGEM: MARIA VERTKIN, FOUND IN TRANSLATION

Isso é especialmente importante em áreas urbanas com grandes populações de imigrantes. Boston, por exemplo, é responsável por 17,1% da população imigrante de Massachusetts e por 16,4% das famílias de imigrantes do estado, de acordo com dados de 2009.

Em Nova York, o sistema New York City Health and Hospitals Corporation (HHC) atende 1,4 milhões de pessoas por ano – muitas delas de origens culturais, étnicas e linguísticas diversas. Matilde Roman, diretora sênior do Escritório dos Serviços Culturais e Linguísticos do HHC, diz que oferece serviços de idiomas 24 horas por dia, sete dias por semana em 11 hospitais, 6 centros de tratamento de diagnósticos, 4 casas de repouso e mais de 70 clínicas comunitárias em todas as cinco regiões do estado de Nova York.

“Quase 40% de todos os novaiorquinos nasceram fora de Nova York”, Roman disse para a Mashable. “Se contarmos as crianças, são cerca de 60% dos 8,4 milhões… Sempre precisamos de serviços linguísticos. Um atendimento de competência cultural está no cerne do que fazemos”.

O HHC trabalha com fornecedores para oferecer serviços de intérprete, tanto pessoalmente como pelo telefone e também tem o seu próprio processo seletivo de treinamento para intérpretes médicos. Em 2014, o HHC ofereceu mais de 10 milhões de minutos de serviços de interpretação em todas as suas várias unidades. Roman explicou também que esses tipos de serviços são necessários em todas as instituições de saúde, devido a regulamentos federais não discriminatórios, bem como a políticas estaduais e locais.

“Interpretação médica é um conjunto de habilidades muito finito. Você não precisa ter competência ou proficiência linguística na língua-alvo e em inglês, também tem que ter um nível de competência em terminologia médica e ética”, diz Romano.

Apesar de ter ouvido falar sobre a Found in Translation pela Mashable, Roman diz que o projeto soa como uma nova abordagem, desde que essas mulheres atendam aos padrões muito elevados que a indústria necessita.

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A turma de formandas da Found in Translation de 2014.
IMAGEM: FEDA EID

Atualmente, a Found in Translation recebe apoio filantrópico e Vertkin admite que isso é tenso e imprevisível.

“É muito dinheiro que pode entrar ou não e o pior e o melhor cenário das suas projeções financeiras têm uma diferença de centenas de milhares de dólares. Isso assusta… Mas ao oferecer serviços de intérprete e conhecendo o mercado… essa é uma maneira muito mais estável de financiamento”, ela diz.

O objetivo do projeto é ser completamente autossustentável no prazo de três a cinco anos, utilizando seus serviços de interpretação para financiar o programa de certificação, sem depender de subvenções e doações. Há também um grande potencial a se considerar: Pessoas em cidades vizinhas, outros estados e lugares longínquos como Reino Unido e Quênia já pediram que Vertkin verificasse se eles poderiam trabalhar com a organização. Mesmo que ainda não estejam lá, Vertkin vê a oportunidade de expandir no futuro, seja pela criação de novos locais ou pela consulta com outras pessoas sobre adotar o modelo que ela criou.

Nesse meio tempo, a Found in Translation está focando nas mulheres do programa e garantindo que cada uma delas possa encontrar trabalho nesse campo.

“As comunidades pobres são ricas em talento bilíngue e esta é uma habilidade que a comunidade principal está louca para ter”, diz Vertkin. “Ser capaz de identificar isso, além de identificar as pessoas que têm essa habilidade para fazer a transição e sair da pobreza é uma coisa única.

Tradução do original em inglês disponível aqui.
Traducción al portugués del original en inglés disponible aquí.
Portuguese translation of the original English version available here.

 

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Ainda estou engatinhando no mundo dos e-books, mas já compilei uma biblioteca de respeito no meu Kindle, viu. Divido com vocês minha biblioteca virtual.

O primeiro deles é um e-dicionário que aprecio muito e salva minha pele nos momentos difíceis. Trata-se do “English-Portuguese Translator’s Dictionary” do Ivo Korytowski, disponível para compra na Amazon. O Ivo disponibiliza para seus clientes do e-book um plug-in para ser usado com o Babylon. E é aí que eu me esbaldo, porque o glossário do Ivo invariavelmente dá uma opção bem mais simpática que todas as outras, com explicação de contextos, em especial os técnicos. O Babylon você pode baixar nesse link, sem custo algum. Já o e-book está a módicos R$ 24,99 (muito mais em conta que qualquer dicionário impresso, diz aí) e o Ivo entra em contato por e-mail para dar o plugin.

Os tradutores saímos ganhando de qualquer forma, porque olha, referência dessa qualidade a gente não encontra todo dia. Um exemplo prático: estou aqui traduzindo sobre para-brisas e surgiu o termo nozzle. Babylon deu “bocal, extremidade”, Barsa mandou “bico (de chaleira), bocal, tubeira, esguicho (de mangueira)”, Ivo lista:

“carcará (peça que solta o spray para o limpador de para-brisa),
bocal, tubeira, injetor, pistola da mangueira para bombas de gasolina”

Preciso dizer mais algum motivo? Acho que não.

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A segunda dica é específica para traduções de medicina, mas é aquela coisa: ninguém sabe o dia de amanhã. Precisando traduzir textos da área, pode confiar no “Portuguese-English Dictionary of Medical Terms”, de Ana Julia Perrotti-Garcia. Caso não faça versão e esteja fazendo cara feia para o sentido português-inglês, não há o que temer. No Kindle há um sistema de buscas a la Ctrl+F super fácil, então também serve para traduções inglês-português.  Pensando bem, deve funcionar muito bem na cabine também. Com mais de 16,500 verbetes, o dicionário apresenta abreviaturas do contexto de uso de cada termo, o que é bastante útil para quem está começando a se aventurar pela área, como eu. Sem contar a explicação do conceito entre parênteses, na sequência, vide exemplo:

“halo [oft] – areola (porção da íris que circunda a pupila);
[pato] areola (área geralmente avermelhada ao redor de uma lesão cutânea inflamatória);
[anat] – areola (qualquer espaço tecidual reduzido)”

Igualmente em conta na Amazon, é um pequeno investimento que vale a pena.

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O mercado de tradução já me foi definido por uma amiga como um balaio de gato e não posso discordar. Por não ser uma profissão protegida por conselhos como os advogados, os médicos, os engenheiros e tantos outros, no Brasil o mercado de tradução abrange todo tipo de profissional. Até os não profissionais.

O pessoal se esquece, no entanto, que nossa profissão é a primeira afetada pela globalização. Os estrangeiros estão, cada vez mais, em busca de falantes nativos de português do Brasil (0 mercado lá fora é sério, leva o conceito de falante nativo em consideração), então já passou da hora de a gente aproveitar essa fatia profissional do mercado. Porque, cá entre nós, com uma concorrência despreparada como a do nosso mercado – li uma legenda outro dia com “visinho”, com s – nada mais simples do que achar seu lugar ao sol.

Alguns princípios básicos que eu aprendi ao longo dos anos e que faço questão de seguir de agora em diante são:

  • Revisão. Como é importante passar pelo aval do próximo, nossa. A perspectiva do texto muda completamente, erros crassos que seu olho viciado naquelas 17 mil palavras infindáveis não pegou são detectados automaticamente por um leitor novo do mesmo texto. Eu sei, eu sei – na correria do dia a dia frenético que temos nessa era conectada revisão é até um luxo. Mas olha, até uma auto-revisão no final do seu trabalho, facilitada com ferramentas como mudança drástica da fonte para “desviciar” seu olhar, provam ser, no final das contas., uma escolha bem acertada;
  • Correção ortográfica. Sua CAT tem corretor, seu Word tem corretor, internet tá aí cheia de recursos. Por que, então, ainda passam erros como visinho? Sinceramente, acho imperdoável, se acontece comigo passo três dias chorando embaixo do edredom. Paralisação, por exemplo, me dói escrever com S, mas nunca mais errei;
  • Pontualidade na entrega. Provei do meu veneno recentemente nesse quesito. Falo tanto disso aqui no blog e aprendi na marra a me atentar aos horários de entrega, não só às datas. Jurava que um documento era para o final do dia e era para o começo, em outro continente. Sabe o que aconteceu? Seis e meia da manhã de uma segunda tocou meu telefone, com cobrança do outro lado do mundo. Tá achando que não acontece nada? Acontece de tudo, você é só um pedaço da cadeia de produção;
  • Preços. Profissionalize-se nesse quesito também. Tive essa luz com uma colega no congresso, com quem reclamei que estava cansada de tanto trabalho, sem tempo de descanso. Ela, bem mais experiente, só me disse “Sinal de que pode cobrar mais”. Parece óbvio, mas precisa alguém de fora nos contar para a ficha cair. Profissionalize-se valorizando seu passe, seus clientes não vão se incomodar de valorizar seu trabalho, seu serviço vale a pena. Tradução barata tem todo dia no jornal, precisando de um serviço de qualidade, as pessoas pagam o justo.

Façamos por onde para seguir evoluindo. Evoluindo e organizando o nosso balaio aos pouquinhos. 

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É engraçado como a gente se acostuma a trabalhar de um modo e pensa que nosso método é perfeito, correndo o risco de achar que não tem mais nada que possa melhorar sua produção. Ledo engano, amigo. Nessa última semana descobri tanta coisa nova que coube dentro de um post. Não só no congresso – o pessoal está super animado nas redes sociais, dando dicas excelentes. A saber:

  • Vai revisar seu documento? Mude a fonte drasticamente. Seu olho vai mudar de referência e o texto vai lhe parecer bem menos familiar;
  • “Como você organiza suas TMs?”, perguntaram em um grupo do Facebook. “Por assunto”, pensei, mas qual não foi a minha surpresa em saber que tem gente que separa por cliente (que pode vir a pedir a TM mais tarde) e a maioria faz uma TM geral. Como é que não pensei nisso antes? É até bom ter uma TM geralzona para ela ter tamanho suficiente para criar o Auto-Suggest no Trados. Adotei para a vida;
  • Essa semana, aliás, estou com um pacote do Trados que não está abrindo de jeito nenhum quando volto a abrir o arquivo, então fiz uma TM backup, para puxar os segmentos toda vez que volto (como é que eu não pensei nisso antes?, o retorno);
  • Workrave, outra dica da palestra da Fernanda Rocha. É um app pentelho (no bom sentido) que te avisa para fazer uma pausa, dá dicas de exercícios laborais e, o melhor de tudo, pode ser personalizado segundo suas necessidades. Meu tempo vem rendendo bem mais nos últimos dias por causa dele, nem te conto;
  • Noisli, mais uma dica dela, que tem em extensão pro Chrome e é um excelente modo de se concentrar, ouvindo no fone de ouvido ruídos como mar, chuva, murmurinho de uma cafeteria (dá para ouvir o cara pegando os grãos de café de quando em vez). Para mim está funcionando lindamente. Mais um plus para minha produtividade;
  • E, finalmente, aqui nesse link você encontra mais um tanto de ferramentas ótimas para qualquer tradutor. Já me cadastrei em uns três sites para testar e assim que minha vida for abalada novamente, compartilho a experiência. Imagem desse post descaradamente roubada de lá, por sinal.

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Vou contar minha historinha.

A última vez que estive em um congresso da ABRATES foi no longínquo 2003, quando ainda estava no segundo semestre da UnB e nem sabia se seria tradutora, mesmo. Tá aqui a prova. Naquele ano, segundo vi aqui no programa que guardei, já estavam os nomes conhecidos até hoje, discutindo tudo o que a gente precisa saber nessa área.

Mas nada comparado a esse ano.

A ABRATES já começou conquistando a minha inscrição pelo número de salas, divididas por temas. Tinha uma só para interpretação, mas também para tradução literária, legendagem, LIBRAS e tudo o mais que a nossa profissão engloba. Ou seja, tinha palestra para todos os gostos. Mas ler uma tabela com os nomes das palestras e dos falantes e pensar “na hora eu decido em que sala entrar” é fácil, difícil é decidir. Queria muito ter visto Isa Mara Lando, o pessoal do Ponte de Letras, as palestras sobre tradução médica e saúde ocupacional, mas não teve como. Sempre tinha alguém interessante no mesmo horário e é aquela coisa, sair no meio de uma fala de só 50 minutos não adianta muito. Mesmo porque eu ia para uma sala diferente e perigava ser barrada pela recepcionista por literalmente falta de espaço físico (acredite, aconteceu). 

Mas não falou-se só do ofício. Tecnologia também foi um assunto popular. Fernanda Rocha deu dicas  de ferramentas e aplicativos para tradutores, Cris Silva fez o mesmo com os intérpretes. Já estou colocando em prática por aqui. Tivemos palestras sobre planejamento financeiro, negociação, co-working da querida Pronoia Tradutoria. Tivemos cabines disponíveis em duas salas para os novatos como eu se aventurarem. E eu me aventurei, né, quem tá na chuva é para se molhar.

Teve de tudo, meu senhor, os quase 900 participantes puderam, literalmente, personalizar sua agenda de palestras como bem entendessem. Tinha stand de vendedor de CAT Tool, de agência querendo freelancer, de livrarias vendendo dicionários. Além dos comes e bebes e cafezinhos e pizzas e tudo o que se tinha direito.

Nos encontramos todos num lugar só, todos nós que ficamos de norte a sul lendo, treinando, traduzindo – fazendo a nossa parte. Não sei vocês, mas eu encontrei muita gente que só conhecia por e-mail, revi o pessoal de Curitiba, o pessoal com quem já trabalhei, com quem já tive aula – deu para matar a saudade de uma vez só. Ainda descobri que a enteada da minha tia também é tradutora e pronto, mais uma para a coleção.

Nos vemos aqui no Rio ano que vem? Espero que sim.

Obrigada, ABRATES. Continuem fazendo a gente se ver sempre.

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Semana passada fiz uma versão sobre biomedicina, um trabalho acadêmico. Foi uma boa oportunidade de usar o e-book da foto acima, que já tinha comprado há alguns meses pro meu Kindle e ainda não tinha tido tempo de usar. Trata-se do English for Research Papers: A Handbook for Brazilian Authours, de Jim Hesson. 

Falando diretamente a um leitor brasileiro, o autor explica de maneira clara e eficiente como escrever bem em inglês, fazendo comparações certeiras entre os dois idiomas. Todas aquelas dúvidas que surgem sobre sujeito indefinido, voz passiva, uso de números em dígitos, you name it, está lá, organizado no índice. A obra atende tanto autores brasileiros escrevendo em inglês como nós tradutores e revisores, pois apresenta capítulos como construção de frases e uso de vocabulário. Sempre fazendo observações sobre falsos cognatos, uso de tempos verbais e – pasmem! – exercícios para treinamento, com exemplos dos mais variados campos de conhecimento (biomedicina, engenharia, biologia marinha, odontologia, entre muitos outros).

O autor diz no prefácio que a obra é fruto de 1.100 revisões que já fez de publicações acadêmicas escritas por falantes nativos de português. Com o tempo, ele identificou problemas recorrentes e elaborou exercícios e esse fantástico guia de estilo. Apesar de ser escrito em inglês, a linguagem é bastante descontraída, muitas vezes com explicações em português entre parênteses das expressões bastante informais utilizadas. Serve para um público-alvo falante de inglês a partir do nível intermediário, funcionando como um manual de instruções de inglês bem escrito.

Acho que ainda é mais funcional por ser em formato de e-book, pois podemos buscar palavras-chave do que queremos pesquisar naquele momento. O índice é bastante funcional também, mas a característica que mais me chamou a atenção foi essa praticidade.

Referência essencial para qualquer bibiloteca, viu. Recomendadíssimo.

 

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Sabe por que São Jerônimo virou santo? Porque ele traduzia sem Google. Mas você pode ver pela imagem acima que até ele recomenda que você usufrua de todo o potencial do índice de todo o conteúdo da Internet para usufruto próprio.

Isto posto, agora precisamos deixar alguns fatos sobre tradução bem claros por aqui. A saber:

1. Tradutor não é necessariamente bilíngue

Não sei como isso se dá com meus colegas, mas sempre que conto para alguém que sou tradutora, a pergunta na sequência é “só de inglês?” (adoro a ênfase no “só”). Como se dominar  um idioma estrangeiro não fosse lá muito trabalho assim. Idioma esse que, veja bem, nunca vou dominar com a naturalidade de um falante nativo – nunca não, talvez; se estudar dia e noite para tal, mas são casos raríssimos. Absolutamente todas as traduções que faço são por meio de pesquisa intensa de vocabulário preciso (dissertação é thesis e tese é dissertation), regência adequada (uma coisa depends on  e não of outra coisa), contexto preciso (uma patente é sempre depositada – filed – nunca arquivada).

Daí a grande diferença da tradução – passar um texto do idioma estrangeiro para o idioma materno – para a versão – passar um texto do idioma materno para o idioma estrangeiro. Em português eu sei que a expressão correta é “envidar esforços” sem ter que recorrer a um dicionário, simplesmente porque eu domino o meu idioma pátrio nesse nível. Em inglês eu tenho que checar direitinho no dicionário o que é um snowshoe porque eu nunca vi neve na vida, sabe. E adivinha: se chama raquete de neve. Sem o Google, quando que um  dicionário em papel ia se dar ao trabalho de explicar para um tradutor brasileiro um instrumento usado em países com neve? Pois.

2. Tradutor pede ajuda dos universitários

Eu vou te confessar uma coisa: super colo minhas traduções. Citações, por exemplo, outro dia me caiu aquela da Coco Chanel “Vista-se mal e notarão o vestido. Vista-se bem e notarão a mulher”. Você acha que eu vou escrever isso em inglês por conta própria se todo mundo já conhece a frase mundialmente? Não senhor. Corro no Google, jogo Coco Chanel quotes e voilá, me aparece um lindo “Dress shabbily and they remember the dress; dress impeccably and they remember the woman.

Mesma coisa para o que o Obama ou qualquer outro falante nativo de inglês disse, rótulos de xampu, aquela notinha que saiu no Financial Times e a Folha traduziu (mas isso é assunto para outro post). Não se trata de falcatrua, é um meio de garantir uma tradução fiel do que foi dito originalmente. Tradução da tradução nunca dá certo, vai por mim.

3. Tradutor não é dicionário

Eu poderia começar explicando que traduzimos ideias e não palavras específicas, mas para simplificar, só digo que: se a gente soubesse todas as palavras, não teríamos dicionários. De termos técnicos. De sinônimos. De regência. Etc. Etc. Então vamos parar com essa história de ficar testando meu conhecimento me pedindo para dizer cocada em inglês ou coisa parecida porque qualquer assunto que você me pedir para traduzir eu vou estudar com muito carinho com a ajuda do menino Google para melhor te atender. Não ache que sou uma tradutora melhor ou pior do que a média porque não sei o seu precioso termo de economia de cor. Se você é da área, nada mais do que sua obrigação saber isso. Uma das grandes vantagens da minha profissão é justamente trabalhar com todas as áreas, em mais de um idioma.