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Segredos desvendados

Marina Borges / 12 de Abril de 2015

google-it

Sabe por que São Jerônimo virou santo? Porque ele traduzia sem Google. Mas você pode ver pela imagem acima que até ele recomenda que você usufrua de todo o potencial do índice de todo o conteúdo da Internet para usufruto próprio.

Isto posto, agora precisamos deixar alguns fatos sobre tradução bem claros por aqui. A saber:

1. Tradutor não é necessariamente bilíngue

Não sei como isso se dá com meus colegas, mas sempre que conto para alguém que sou tradutora, a pergunta na sequência é “só de inglês?” (adoro a ênfase no “só”). Como se dominar  um idioma estrangeiro não fosse lá muito trabalho assim. Idioma esse que, veja bem, nunca vou dominar com a naturalidade de um falante nativo – nunca não, talvez; se estudar dia e noite para tal, mas são casos raríssimos. Absolutamente todas as traduções que faço são por meio de pesquisa intensa de vocabulário preciso (dissertação é thesis e tese é dissertation), regência adequada (uma coisa depends on  e não of outra coisa), contexto preciso (uma patente é sempre depositada – filed – nunca arquivada).

Daí a grande diferença da tradução – passar um texto do idioma estrangeiro para o idioma materno – para a versão – passar um texto do idioma materno para o idioma estrangeiro. Em português eu sei que a expressão correta é “envidar esforços” sem ter que recorrer a um dicionário, simplesmente porque eu domino o meu idioma pátrio nesse nível. Em inglês eu tenho que checar direitinho no dicionário o que é um snowshoe porque eu nunca vi neve na vida, sabe. E adivinha: se chama raquete de neve. Sem o Google, quando que um  dicionário em papel ia se dar ao trabalho de explicar para um tradutor brasileiro um instrumento usado em países com neve? Pois.

2. Tradutor pede ajuda dos universitários

Eu vou te confessar uma coisa: super colo minhas traduções. Citações, por exemplo, outro dia me caiu aquela da Coco Chanel “Vista-se mal e notarão o vestido. Vista-se bem e notarão a mulher”. Você acha que eu vou escrever isso em inglês por conta própria se todo mundo já conhece a frase mundialmente? Não senhor. Corro no Google, jogo Coco Chanel quotes e voilá, me aparece um lindo “Dress shabbily and they remember the dress; dress impeccably and they remember the woman.

Mesma coisa para o que o Obama ou qualquer outro falante nativo de inglês disse, rótulos de xampu, aquela notinha que saiu no Financial Times e a Folha traduziu (mas isso é assunto para outro post). Não se trata de falcatrua, é um meio de garantir uma tradução fiel do que foi dito originalmente. Tradução da tradução nunca dá certo, vai por mim.

3. Tradutor não é dicionário

Eu poderia começar explicando que traduzimos ideias e não palavras específicas, mas para simplificar, só digo que: se a gente soubesse todas as palavras, não teríamos dicionários. De termos técnicos. De sinônimos. De regência. Etc. Etc. Então vamos parar com essa história de ficar testando meu conhecimento me pedindo para dizer cocada em inglês ou coisa parecida porque qualquer assunto que você me pedir para traduzir eu vou estudar com muito carinho com a ajuda do menino Google para melhor te atender. Não ache que sou uma tradutora melhor ou pior do que a média porque não sei o seu precioso termo de economia de cor. Se você é da área, nada mais do que sua obrigação saber isso. Uma das grandes vantagens da minha profissão é justamente trabalhar com todas as áreas, em mais de um idioma.

 

2 thoughts on “Segredos desvendados

  1. Que texto impecável! Merecia uma publicação em jornal! rs Adorei quando você disse para pararem de testar nossos conhecimentos, achando que somos dicionário. Me sinto muito assim. Já que aqui não tem carinha. Palmas pra você!

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