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Dicionários que amamos, parte I: Barsa

Marina Borges / 14 de janeiro de 2015

Jovem, houve um tempo em que não havia Google. Não havia computador, tudo era impresso. Mas, ainda assim, existiam tradutores.

Vivíamos na escuridão? Naturalmente que não.

Vivíamos rodeados por imensos livros pesados e empoeirados que saciavam a nossa sede eterna de conhecimento. Livros esses caros, de nome enciclopédias. Basicamente uma Wikipédia impressa (só que confiáveis), vendidos de porta em porta por senhores engravatados. De vez em quando, dávamos sorte e elas vinham com dicionários de brinde. Daí os tradutores éramos agraciados com tamanha generosidade!…

Mentira, não sou do tempo dos senhores engravatados, nasci um pouco depois. Além disso, suspeito que os tradutores só foram agraciados uma vez. Quando um rapaz chamado Houaiss (sim, aquele) lançou, junto com uma moça chamada Catherine B. Avery, o primeiro da série “Dicionários que amamos”: o Dicionário Barsa.

barsa
Behold!

Prezado colega tradutor de inglês, caso você não seja proprietário desses dois exemplares, por favor, tome uma providência. Nesse exato momento, anda! Os livros estão à venda na Estante Virtual por uma bagatela, veja bem, por uma pechincha! O gerente ficou maluco. Corra, corra!

Novo Dicionário Barsa das Línguas Inglesa e Portuguesa

Esse é o nome oficial dele. A minha edição é de 1978 e só neles eu encontro aqueles termos de outrora, aquele vocabulário de raiz, aquela poesia cotidiana pela qual a modernidade não mais se interessa. É o meu dicionário favorito desde 2002, ainda não conheci nenhum melhor.

Aquelas palavras de filme em preto e branco? Estão lá. Gírias idosas? Idem. Mas também estão listadas todas as palavras cotidianas, aquelas palavrinhas malandras que parecem ser uma coisa, mas que soam tabajara demais para ser verdade, e, principalmente, todas as palavras importantes.

Às vezes chego a me surpreender como um dicionário já antigo tem verbetes técnicos ainda em uso. É uma constante procurar uma tradução mais complicada em algum lugar e pensar “será que a Barsa sugere algo melhor?”, e todas as vezes – pronto, tá lá uma beleza de tradução.

Não vou nem explanar o volume português-inglês – como me ajuda! Quando estou completamente perdida e nem o Google nem o Babylon sabem como me ajudar, lá vem a Barsa me dar uma luz. Fornecendo informações adicionais, como gênero, plural, expressões populares com aquele termo.

Acho que a grande diferença é que o dicionário foi compilado por dois autores que se preocupavam bastante com o brasilianismo dos vocábulos. O volume de versão é craque nessas horas, de explicitar o que pode soar vulgar em inglês ou a explicação de uma comida tipicamente brasileira, por exemplo.

É uma obra com um conteúdo informal e formal bastante equilibrado, por assim dizer. Outro ponto que considero um grande destaque é ele informar as expressões idiomáticas. O verbete “mão”, por exemplo, inclui expressões padrão como “mão de obra”, mas também apresenta gírias como “voltar de mão abanando”.

Na minha opinião, é uma obra indispensável da estante de qualquer tradutor brasileiro de inglês.

2 thoughts on “Dicionários que amamos, parte I: Barsa

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