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Tradução: o intérprete dos líderes soviéticos

Marina Borges / 26 de maio de 2014

Viktor Sukhodrev, notável intérprete dos líderes soviéticos, morre aos 81 anos

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(Intérprete soviético Viktor Sukhodrev, centro, com premiê soviético Leonid Brezhnev, à esquerda e o presidente Richard Nixon, em uma reunião em Washington em 1973)

Viktor Sukhodrev foi um notável intérprete que esteve ao lado de todos os líderes soviéticos durante três décadas, como a voz em língua inglesa no Kremlin. Muitas vezes, era a terceira pessoa na sala durante reuniões de cúpula de alto nível durante a Guerra Fria. Morreu dia 16 de maio em Moscou – ele tinha 81 anos.

O Ministério das Relações Exteriores da Rússia e outras organizações anunciaram sua morte. De acordo com relatos da mídia russa, a causa foi uma parada cardíaca.

O Sr. Sukhodrev, natural de Moscou, passou vários anos de sua infância em Londres e aprendeu a falar inglês com fluência impecável. Colocou suas competências linguísticas em uso no Ministério Soviético das Relações Exteriores e se tornou o principal intérprete de tradução oral de cada líder soviético, de Nikita Khrushchev a Mikhail Gorbachev.

Em 1956, quando Khrushchev falou durante uma reunião de diplomatas ocidentais em Moscou, foi o Sr. Sukhodrev que forneceu a tradução imediata para o inglês da frase que se tornou, talvez, a declaração mais memorável​​ e ameaçadora da Guerra Fria. “Quer vocês gostem ou não, estamos no lado certo da história. Vamos enterrá-los”.

O significado do comentário de Khrushchev foi infinitamente analisado por kremlinologistas durante décadas. Porém, Viktor defendeu ter dado uma “tradução exata” das palavras do líder soviético.

Como a língua está sujeita a erros de interpretação, o protocolo diplomático nas reuniões de cúpula da Guerra Fria durante muito tempo foi que cada país trouxesse seus próprios intérpretes. Com o tempo, no entanto, Viktor foi reconhecido como um profissional tão hábil e discreto, que muitas vezes lhe foi confiada a missão de ser o único intermediário entre os dois lados.

Ele esteve presente em mais reuniões de superpotências mundiais do que qualquer outra pessoa na história, incluindo os líderes para quem falou. Como qualquer outra pessoa, ele deu voz – em duas línguas – à linguagem da diplomacia e do brinkmanship nos níveis mais altamente elevados.

“Você não pode parar para refletir. Simplesmente não pode. Se fizer isso, erra”, disse Viktor ao New York Times em 2005. “Um intérprete nesse nível não pode – e não ‘não deve’ – simplesmente não pode cometer um erro”.

Em Moscou em 1972 e em Washington um ano depois, Viktor foi o único intérprete de cúpulas entre o presidente Richard Nixon e o líder soviético Leonid Brezhnev.

“Havia uma preocupação extrema de que eu deveria ter um tradutor do Departamento de Estado também presente”, Nixon escreveu em suas memórias. “Mas eu sabia que Sukhodrev era um linguista soberbo, que falava inglês tão bem quanto russo, e achei que Brezhnev iria falar com mais liberdade se apenas uma outra pessoa estivesse presente”.

Henry Kissinger, conselheiro de segurança nacional de Nixon na época, escreveu em seu livro White House Years que o único registro de algumas das reuniões entre Brezhnev e Nixon veio “do esplêndido intérprete soviético Viktor Sukhodrev”. Ele ditou seus relatos das sessões para a secretária de Kissinger.

Durante anos, Viktor também foi o intérprete-chefe do Ministro das Relações Exteriores soviético, Andrei Gromyko. Esteve em reuniões com sete presidentes dos EUA, muitos ministros das relações exteriores e outras autoridades de nível ministerial, além de inúmeros líderes mundiais. A lista inclui Harold Wilson e Margaret Thatcher do Reino Unido, Pierre Trudeau e Brian Mulroney do Canadá e Rajiv Gandhi da Índia.

“É uma sensação quase mística de que você está unindo as pessoas”, disse Viktor sobre seu papel como intérprete. “Pessoas que, de outra forma, nunca seriam capazes de se comunicar”.

Viktor tinha um dom notável de mimetismo e adaptou seu estilo de interpretação para atender ao público. Dependendo do seu ouvinte, ele poderia mudar de um sotaque britânico perfeito para um inglês americano idiomático, sem um momento de hesitação.

“Ele é incrível”, uma fonte anônima que participou de reuniões diplomáticas de alto nível com Sukhodrev disse ao Los Angeles Times em 1973. “Quando a voz do orador sobe, a dele também sobe, quando o falante tenta soar bem-humorado, Viktor fica bem-humorado, quando o tom é sério, Viktor fica sério”.

Ele tinha uma capacidade de descrever as políticas delicadas e as manobras diplomáticas com clareza fantástica. Também conseguia traduzir gírias de uma língua para outra com expressividade vívida. Quando foi negada a Khrushchev permissão para visitar a Disneylândia durante sua visita aos Estados Unidos em 1959, Viktor interpretou a insatisfação do líder soviético sem educação formal com esta expressão idiomática: “Há uma epidemia de cólera lá ou quê que é?”.

Uma das poucas vezes que Viktor foi desarmado foi quando Nixon usou um termo chulo para castração. A tradução russa que Sukhodrev usou foi “cortar a fruta da árvore”.

Para se manter atualizado com as tendências linguísticas e sociais, Viktor leu muitas publicações em língua inglesa, incluindo romances policiais. Ele era conhecido como o “rei dos intérpretes” e admirado por colegas, mas outras vezes era considerado uma espécie de enigma.

Ele usava roupas da moda não disponíveis na antiga União Soviética e tinha uma urbanidade suave mais para James Bond do que Leonid Brezhnev. Algumas pessoas tinham certeza que ele era da KGB, a polícia secreta soviética.

“E daí se ele é da KGB?”, um diplomata dos EUA disse ao Los Angeles Times. “Ele com certeza tem algo muito especial, porque eles confiam muito nele”.

Viktor Mikhailovich Sukhodrev nasceu em 12 de dezembro de 1932, em Moscou. Seu pai era um oficial da inteligência militar que, de acordo com alguns relatos, pode ter servido à paisana nos Estados Unidos.

Sua mãe, membra de uma missão comercial soviética, ficou baseada em Londres de 1939 até o final da Segunda Guerra Mundial. Quando criança, Viktor frequentou a escola soviética oficial em Londres, mas seus colegas eram ingleses. Muitas vezes ele acompanhava o carteiro do bairro em suas rondas, aprendendo sotaques e costumes sociais.

“Isso foi quando eu realmente acreditava, e nunca perdi essa crença, que quando eu crescesse eu ia ser o homem do meio”, ele disse ao New York Times em 2005. “Eu ia ser um intérprete. E se eu fosse fazer isso – eu sentia – eu ia ser muito bom. Talvez o melhor”.

Depois de retornar a Moscou, Viktor estudou inglês no instituto de línguas estrangeiras do país, onde os diplomatas e agentes de espionagem eram treinados. Ele entrou para o serviço diplomático soviético em 1956.

Seus deveres oficiais finais foram com Gorbachev, durante os últimos dias do império soviético no final dos anos 1980. Foi o intérprete em reuniões privadas com o presidente Ronald Reagan e o vice-presidente George Bush. Como a União Soviética entrou em colapso, Viktor ocupou cargos diplomáticos de destaque em Moscou e trabalhou nas Nações Unidas, em Nova York, antes de se aposentar e voltar para Moscou.

Ele deixa sua segunda esposa, Inga Okunevskaya (professora de inglês) e um filho de um primeiro casamento, que terminou em divórcio.

Sukhodrev publicou um livro de memórias, My Tongue is My Friend em 1999, que ainda tem que ser traduzido para o inglês.

Nos últimos anos, ele falou mais abertamente sobre o sistema soviético e os líderes cujas palavras ouviu tão atentamente por tanto tempo. “Mesmo quando dizíamos que o nosso sistema era o melhor”, ele disse ao Houston Chronicle em 2004, “no fundo, sabíamos em nossos corações que não era”.

De todos os presidentes que Viktor conheceu, ele admirava John Kennedy – “ele tinha tanto carisma” – e Nixon. “Sendo um estudioso de relações internacionais, Richard Nixon pode ter sido o presidente mais subestimado”.

Entre os líderes soviéticos, ele tinha uma certa simpatia pelo toque comum de Khrushchev. Mesmo ele sendo “ignorante, rude, um camponês, por assim dizer” e “usado muitos velhos ditados rurais russos, nem sempre fáceis de traduzir”.

Sukhodrev estava com Khrushchev nas Nações Unidas em 1960, quando, em um momento de irritação, o líder soviético tirou o sapato – na verdade, uma sandália, conforme Sukhodrev observou – e começou a batê-la na sua mesa em protesto.

Não foi necessária nenhuma interpretação.

© The Washington Post Company

Tradução do original em inglês disponível aqui.
Traducción al portugués del original en inglés disponible aquí.
Portuguese translation of the original English version available here.

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