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Tradução: o sexismo no Brasil e no Oriente Médio

Marina Borges / 23 de março de 2014

Que lugar é mais sexista: o Oriente Médio ou a América Latina?

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Esquerda: Mulheres vestindo burcas andam pelo Golfo de Aqaba, na Jordânia, em 2006. Direita: Mulheres de biquíni visitam uma praia no Rio de Janeiro em 2013.

por LOURDES GARCIA-NAVARRO

Uma mulher seminua usando um traje de carnaval feito de lantejoulas. Uma mulher de véu, mostrando somente seus olhos em um nicabe. Dois estereótipos de duas regiões muito diferentes: a América Latina e o Oriente Médio.

Na superfície, essas duas imagens não poderiam ser mais diametralmente opostas. O que as duas poderiam ter em comum, não é mesmo? O que uma mulher veste – ou o que ela não veste, no caso do Brasil – costuma ser interpretado como um sinal de sua emancipação. O véu, para muitos, é um símbolo de opressão feminina – o direito de usar um biquíni, um símbolo de libertação.

Como mulher e estrangeira que já morou em Bagdá e no Cairo e trabalhou ao longo de todo o Oriente Médio durante anos, sempre senti a necessidade de me vestir modesta e respeitosamente. Para falar a verdade, minha recente mudança de volta para a América Latina foi, a princípio, um alívio. O Brasil é a terra onde menos é mais – e foi maravilhoso poder vestir o que eu bem entendesse.

Mas por baixo das diferenças indumentárias, o Oriente Médio e o país conhecido como o mais despudorado da América Latina impõem seus próprios encargos sobre as mulheres, na forma como são tratadas e percebidas.

Recentemente, durante uma tarde agradável, estava eu sentada em um quiosque à beira-mar, assistindo a cobertura do carnaval do Brasil na maior emissora daqui, a GLOBO. De repente, uma mulher nua apareceu na tela, durante um intervalo comercial. Ela não estava vestindo nada. Literalmente nada, a não ser um sorriso e glitter pelo corpo. Chamada de “Globeleza”, ela é o símbolo da cobertura do festival pela Globo e aparece em todos os intervalos.

Mais tarde, a programação mostrou um concurso em que mulheres de várias escolas de samba – todas elas negras – eram julgadas pela sua aparência e talento para dança por um painel formado somente por pessoas brancas. Todas as suas medidas corporais eram lidas para a multidão. Mas quando uma delas disse que estava estudando em um dos setores petroquímicos mais importantes do Brasil, para vir a trabalhar na indústria de petróleo e gás, um juiz homem sorriu, com surpresa.

O papel das mulheres no Brasil

É isso que podemos dizer sobre o Brasil: o país tem uma mulher presidente e as mulheres estão bem representadas na força de trabalho. Aqui não é a Arábia Saudita, onde as mulheres não podem dirigir. Nem o Afeganistão, sob o regime do Talibã, onde as mulheres não podem estudar.

E, ainda assim, é um dos países mais perigosos para se viver se você é do sexo feminino. As estatísticas mostram que, a cada duas horas, uma mulher é assassinada no Brasil. É o país com o sétimo maior índice de violência contra mulheres no mundo.

Essa justaposição de sexo e violência não é novo, diz Rosana Schwartz, historiadora e socióloga da Universidade Presbiteriana Mackenzie, em São Paulo. O Brasil importou mais escravos do que qualquer outro país das Américas e a escravidão só foi abolida em 1888.

“As escravas eram usadas como objetos sexuais para que o filho do senhor iniciasse sua vida sexual ou para satisfazer o próprio senhor. O resultado foi que, até hoje, as mulheres brasileiras são vistas de uma maneira sexista, de uma forma mais sexualizada – porque elas foram usadas como objeto sexual por muito tempo”, diz Schwartz. Esse legado ainda afeta mulheres de todas as classes e raças aqui.

Em muitas partes do Oriente Médio, no entanto, as mulheres estão, em sua maioria, escondidas em casa. Nos países mais tradicionais, não são autorizadas a ter contato não supervisionado com homens fora de suas famílias. A mutilação genital feminina – quando a mulher tem seu clitóris removido – ainda é praticada em muitas regiões do Oriente Médio.

Pressão para se conformar

As mulheres brasileiras não enfrentam os mesmos tipos de restrições. As brasileiras só perdem para as americanas em relação ao número de cirurgias plásticas que fazem e ao número de produtos de beleza que consomem.

Em um artigo recente falando sobre reconstrução vaginal – sim, o Brasil é o líder mundial nesta cirurgia estética, também – a psicanalista Regina Navarro observou que há uma enorme pressão no Brasil para se conformar com um ideal. “As mulheres querem se adaptar ao que elas acham que os homens querem”, ela disse à revista brasileira Glamour.

Recentemente, estive em uma das maiores agência de modelos internacionais em São Paulo. De tarde, diversas modelos magérrimas entraram ali com seus portfólios amadores e grandes sonhos. Todas as meninas tinham entre 11 e 15 anos. O principal headhunter me disse, confiante, que no Brasil todos os meninos sonham ser jogadores de futebol e que todas as meninas aspiravam ser modelos.

Visitando escolas locais, aprendemos rapidamente que as meninas não são estimuladas a se tornarem o próximo Ronaldo. Mesmo o Brasil sendo uma força mundial no futebol masculino, o futebol feminino é quase inexistente. Mas meninas de seis ou sete anos conhecem todas as modelos que estão na capa das revistas.

O que nos leva à recente controvérsia sobre a Adidas. Profissionais de marketing muito espertos (presumivelmente homens) criaram duas camisas que o patrocinador da Copa do Mundo estava vendendo antes dos jogos que vão ocorrer aqui esse ano.

Uma camisa mostra uma mulher de biquíni ao lado do slogan “Looking to Score in Brazil” (“Esperando para marcar gols/namorar muito no Brasil”, em uma tradução livre). A outra diz: “I (heart) Brazil” (“Eu (coração) Brasil”), com um coração desenhado na forma das nádegas de uma mulher usando um biquíni fio dental. Depois que o Brasil reclamou que as camisetas eram sexistas, elas foram retiradas.

Mas a objeção foi por seletividade, quando não hipocrisia.

Uma coluna no maior jornal do Brasil, a Folha de São Paulo, disse: “Em comparação com a mulher nua dançando na TV Globo todos os dias durante o carnaval, isso não é nada. Minha filha de 5 anos perguntou: ‘Por que é que a mulher está dançando nua na TV, papai? ” Eu tive que explicar que ela estava com muito calor. Nossa cobertura de carnaval se concentra exclusivamente sobre o corpo feminino, portanto, segundo esse padrão, essas camisetas são até bastante inofensivas”.

A Copa do Mundo de 2022 será disputada no Qatar, um país nem um pouco conhecido por seu sex appeal. Ativistas pelas mulheres muitas vezes atacam o Oriente Médio por suas políticas em relação a elas. Mas, conforme minha estadia no Brasil tem me ensinado, para as mulheres, mesmo o fato de ter toda a liberdade do mundo pode ser a sua própria gaiola.

Tradução do original em inglês disponível aqui.
Traducción al portugués del original en inglés disponible aquí.
Portuguese translation of the original English version available here.

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