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Tradução: uma língua sem números

Marina Borges / 23 de outubro de 2013
O povo Pirahã no rio Maici no Amazonas, Brasil. (Foto cedida por Tony Muricy)

O que acontece quando uma língua não tem números?

Por Mike Vuolo

Os Pirahã são um povo indígena com uma população de cerca de 700 pessoas, que vive ao longo das margens do rio Maici, na floresta localizada no noroeste do Brasil. Sua língua, também chamada Pirahã, é tão incomum sob diversos aspectos que teve seu perfil traçado em 2007, em um artigo de 12 mil palavras publicado na revista New Yorker por John Colapinto, que escreveu:

Sem relação com qualquer outra língua existente e baseada apenas em oito consoantes e três vogais, Pirahã tem um dos sistemas de som mais simples conhecidos. No entanto, tem um conjunto tão complexo de tons, ênfases e comprimentos de sílabas, que seus falantes podem dispensar o uso das vogais e consoantes completamente e cantar, murmurar ou assobiar conversas.

Entre as muitas peculiaridades da Pirahã está a quase total falta de aritmética, um traço linguístico extremamente raro, que só existe em alguns casos documentados. A língua não contém nenhuma palavra para números específicos e apenas três delas expressam, de forma aproximada, uma noção de quantidade. Hói é uma “pequena quantidade ou valor”, hoí, “uma quantidade um pouco maior”. Já baágiso pode significar tanto “fazer juntar” ou “um monte”.

Sem ter como poder expressar números inteiros exatos, a pergunta óbvia é: então como os Pirahã contam? De modo mais pragmático, como eles pedem duas quantidades de algo em vez de apenas uma? De acordo com algumas das mais recentes pesquisas sobre falta de numeração, publicadas pelo antropólogo linguista Caleb Everett na revista  Cognitive Science, a resposta sugere que eles não contam – e isso é quase inconcebível.

Everett, filho de missionários cristãos que viraram linguistas, viveu em períodos diferentes de sua infância com os Pirahã. Seus pais falam Pirahã fluentemente, como nenhum outro ocidental, embora seja quase impossível para um falante não-nativo dominar a língua. Alguns anos atrás, Everett (cujo pai foi destaque no artigo da New Yorker) viajou de volta para as aldeias Pirahã para realizar alguns experimentos muito simples.

Para um dos testes, ele colocou sobre uma mesa uma fileira de itens uniformemente espaçados (por exemplo, pilhas) e pediu que os Pirahã formassem uma segunda fileira, igual à primeira. Em outro teste, ele mostrou uma fileira de itens e depois bloqueou a visão da mesma. Novamente, pediu que formassem uma segunda fileira, igual à primeira. Em ambos os casos, não houve erros – desde que as fileiras tivessem apenas dois ou três elementos de comprimento. Porém, como Everett escreveu em seu artigo, “a proporção de respostas corretas costuma cair significativamente com números superiores a dois ou três”.

Isso provou ser verdade para todas as tarefas, incluindo um teste não-visual que envolveu palmas. Anglófonos, por outro lado, não cometeram nenhum erro, exceto quando uma fila relativamente longa de itens (por exemplo, sete ou mais), foi mostrada rapidamente e, em seguida, ocultada. Temos uma velocidade limitada para contar, afinal de contas – mas parece que os Pirahã não estão contando em absoluto. Por que? Bem, como poderiam fazer isso? Estão na verdade empregando o que Everett chama de “estratégia de estimativa análoga”, que funciona bem para poucos itens, mas se decompõe além disso.

Se a necessidade é a mãe da invenção, então talvez os Pirahã nunca precisaram de números. Seja porque a contagem precisa não é culturalmente valorizada ou porque esse valor tem uma solução suficiente, sem numeração. Nada sobre o modo de vida autossuficiente dos Pirahã parece exigir reconhecimento de quantidades maiores que três, diz Everett. Um fato que não se perdeu com gente de fora da tribo, que às vezes tiram vantagem disso ao trocar bens. Ao longo dos anos, as tentativas de ensinar palavras de números e aritmética básica para os Pirahã tiveram pouco sucesso, em grande parte porque eles simplesmente não se interessam. Na verdade, os Pirahã tem um termo para todos os idiomas que não o seu, que é traduzido como “cabeça torta”, que pretende ser “claramente pejorativo”. Colapinto assinala:

Os Pirahã consideram todas as formas humanas de discurso diferentes do seu ridiculamente inferiores, e eles são os únicos entre os povos amazônicos a permanecer monolíngues.

Em nossa cultura mais baseada em dados a cada dia, onde nos reencarnamos cada vez mais em forma de planilhas, a falta de numeração é algo impensável. Muitos temem que, em meio à revolução das “estatísticas avançadas” em todos os aspectos da vida, isso significa que ser e sentir-se humano está mudando para sempre – e não para melhor. Talvez seja reconfortante saber, então, que enquanto estamos ocupados traçando o nosso ritmo cardíaco, medindo nossa ingestão ou debruçados sobre as vitórias em relação aos valores de reposição do nosso campeonato de mentira, os Pirahã, imunes à tirania implacável de números, simplesmente desfrutam do jogo.

Mike Vuolo é o produtor sênior de podcasts e criador e editor do blog Lexicon Valley da Slate.

Tradução do original em inglês disponível aqui.
Traducción al portugués del original en inglés disponible aquí.
Portuguese translation of the original English version available here.

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