Español, Português

Tradução: “Insultos em uma segunda língua ofendem menos”

Marina Borges / 11 de agosto de 2013

Por: Pere Estupinya | 07 de agosto de 2013

Se a sua língua materna é o espanhol e alguém grita “you’re an asshole!” você vai se ofender menos do que se a mesma pessoa disser: “eres um capullo!”.

E isso não é porque você leva mais tempo para processar a informação em inglês. Mesmo entendendo perfeitamente e na primeira vez o que estão dizendo, nossa carga emocional associada a uma segunda língua é muito menor do que a da nativa.

As várias implicações desta questão tão interessante são objeto de estudo de Albert Costa, diretor do grupo de Produção de Fala e Bilinguismo da Universidade Pompeu Fabra, em Barcelona.

Por exemplo, Albert suspeita que se você for pego após cometer um delito e inventar uma desculpa, embora dominando o espanhol, talvez seja mais fácil mentir em inglês. Ou melhor, emocionalmente você vai se importar menos.

Esta é apenas uma hipótese que ele está pesquisando junto com Jon Andoni Duñabeltia, do Basque Center on Cognition, Brain and Language, realizando pupilometrias em voluntários – que são convidados a mentir em sua primeira língua ou em outra.

O estudo ainda está em andamento e comprovará se as pupilas dilatam um pouco mais (prova de maior impacto emocional) quando você mente na sua língua materna, em comparação a outra língua. Namorados e namoradas em relações bilíngues, tomem nota. Vendedores e compradores, também.

Efeitos cognitivos do bilinguismo

Conversando com Albert, deduzo que as vantagens ou desvantagens cognitivas do bilinguismo – que ele também estuda – o interessam menos, e que ele anda um pouco cansado de que em certas regiões só lhe perguntem sobre as vantagens e em outras, só sobre as desvantagens.

Ele vai direto ao ponto e conclui que “o fato de intercalar dois idiomas diariamente parece fortalecer a capacidade de atenção de maneira genérica, e temos visto muita coisa que ajuda um pouco o multitasking, como se houvesse um pouco mais de neurônios e conexões no córtex cingulado anterior dos bilíngues (área do cérebro relacionada a muitas funções de controle das tarefas cerebrais, não apenas de linguagem). Mas também vimos que os bilíngues, muitas vezes, cometem erros menores de dicção, têm na média um vocabulário mais pobre em cada língua (e de maneira global muito maior, desde cedo) e que sua velocidade e domínio finais são ligeiramente menores. Mas os efeitos são muito pequenos e sujeitos a grande diversidade individual”.

Quando perguntado se o efeito é o mesmo para o caso de bilíngues de catalão e castelhano ou de castelhano e inglês, ele explica que as melhorias na capacidade de atenção não são dependentes da proximidade das duas línguas. Na verdade, o catalão e o castelhano são muito semelhantes, o que faz com que sejam mais fáceis de se aprender, mas o esforço para discernir os dois idiomas pode ser maior do que entre alemão e chinês. Em línguas semelhantes, é mais fácil misturar palavras e o esforço para fazê-lo pode contribuir mais para o fortalecimento neuronal do controle de tarefas.

Mais interessante é o efeito protetor que o bilinguismo pode ter contra a demência ou o Alzheimer. A mensagem é clara: aprender várias línguas e exercitar muito o cérebro não previnem a doença. Mas por outro lado, foi observado que, se os danos cerebrais forem iguais, os sintomas são menores nas pessoas que exercitaram muito o cérebro. E estudar/praticar outra língua é um exercício importante.

Decisões mais lógicas e utilitárias em sua segunda língua

Mas voltemos à carga emocional diferente entre as línguas nativas e aquelas aprendidas depois de adulto, porque essa é de fato uma novidade científica. Na verdade, Albert Costa tem resultados espetaculares ainda não publicados, que quando assim o forem, serão notícia no mundo todo.

alavanca

 

Talvez você já conheça o seguinte dilema moral, usado em muitos experimentos de psicologia: Você está vendo um trem desgovernado que vai atropelar 5 pessoas dormindo nos trilhos. Na sua frente, há uma alavanca que lhe permite redirecionar o trem para uma nova pista onde há “apenas” uma pessoa dormindo. Você aciona a alavanca ou não? Mais de 90% de vocês decide mudar para atropelar uma pessoa em vez de 5.

ponte

 

Agora você está em cima de uma ponte vendo o mesmo trem desgovernado prestes a atropelar 5 pessoas dormindo. Na sua frente, há um homem obeso que, se você empurrar ponte abaixo vai morrer, mas cujo peso do corpo vai frear o trem. Você empurra o homem ou não? Embora o resultado numérico seja exatamente o mesmo, 80% das pessoas optam por não empurrar ninguém nos trilhos. Emocionalmente e moralmente, o julgamento não é o mesmo.

O mais interessante: Albert apresentou este dilema moral para mais de 700 pessoas em suas línguas maternas ou segundas línguas (tanto espanhóis que sabem inglês como ingleses que moram em Andaluzia), e observou que uma percentagem muito maior de pessoas decide empurrar o homem obeso quando elas enfrentam a situação em sua segunda língua. As porcentagens exatas e os detalhes do estudo ainda não podem ser explicados (o artigo científico foi enviado, porém ainda não publicado), mas se trata de um resultado muito significativo e impactante. Somos mais utilitários com a nossa segunda língua.

E, curiosamente, também é mais difícil de sermos enganados por armadilhas da intuição. Albert também está usando truques clássicos da behavioral economics em duas línguas diferentes, para ver se somos mais racionais ou intuitivos em uma língua ou em outra.

Você é apresentado a estas duas situações, por exemplo: a) Você vai a uma loja comprar uma jaqueta que custa $125 e uma calculadora que custa $15, e aí um cliente diz “ei, há uma loja a 20 minutos a pé daqui, onde a mesma calculadora custa $10 a menos”. Você iria até a outra loja ou não?. b) Você vai a uma loja comprar uma jaqueta que custa $125 e uma calculadora que custa $15 e um cliente diz “ei, há uma loja a 20 minutos a pé daqui, onde a mesma calculadora custa $10 a menos”. Você vai comprar na outra loja ou não?

Em ambas as situações você economiza o mesmo valor, mas, em média, muito mais pessoas vão para a segunda loja para comprar uma calculadora por $5 e não por $15 do que uma jaqueta por $115 em vez de $125. O pensamento intuitivo nos faz acreditar que a economia é maior no primeiro caso do que no segundo.

Bem, Albert explica que este teste foi feito com pessoas em línguas diferentes, e ficou comprovado que o engano intuitivo é menor na segunda língua.

Na verdade, o efeito desaparece quando se trata de um cálculo exclusivamente matemático. Um exemplo típico: Se uma bola e um taco de beisebol juntos custam US$1,10, e o taco de beisebol vale um dólar a mais do que a bola … Quanto custa a bola? Vamos, pense rápido antes de ler a próxima linha …. Já sabe?

A maioria das pessoas responde que a bola custa 10 centavos. Mas não, a bola vale 5 centavos: $0,05 (bola)+ $1,05 (taco)= $1,10. Não é uma decisão emocional, mas sim um caso clássico de armadilha exclusivamente matemática, que quando realizada na língua materna ou na língua aprendida, fazem com que os resultados daqueles que acertam ou não sejam idênticos.

Um último exemplo relacionado a “aversão à perda” (loss aversion): Se um estudo oferece a vários voluntários apostar 50 euros pelo dobro ou nada, com 60% de chance de ganhar, mais pessoas vão apostar se você oferecer o mesmo com 40% de chance de perder.

As palavras “ganhar” e “perder” contem carga emocional e condicionam a sua resposta. Em experimentos de “aversão às perdas” mais elaborados do que aqueles em que o resultado numérico  é sempre o mesmo, observa-se claramente que o medo de perder paralisa mais do que a opção de ganhar. Mas se o experimento for realizado em uma segunda língua, o efeito é reduzido e respondemos de forma mais lógica. Isso já foi publicado por Keysar et al. “The Foreign Language Effect: thinking in foreign tongue reduces decision biases”. Psychol Sciences, 2012.

Agora você já sabe: pensar em uma segunda língua tem menos carga emocional do que em sua língua nativa, faz com que você seja mais utilitário, e menos propenso a enganos da sua intuição. Em algumas circunstâncias e profissões, isso pode ser uma vantagem, em outras, inconveniente.

Tradução do original em espanhol disponível aqui.
Traducción al portugués del original en español disponible aquí.
Portuguese translation of the original Spanish version available here.

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