Português

A literalidade nossa de cada dia

Marina Borges / 25 de abril de 2019


Imagem do rawpixel disponível no Pixabay

Dado o meu histórico de primeiro ter estudado tradução e mais tarde interpretação de conferências, vejo que meu estilo de traduzir mudou desde então. Antes eu era mais presa ao texto original, não me permitia “ousar”, estava sempre focada no autor, no dono do material. Quando comecei a estudar tradução simultânea, adquiri uma técnica de procurar traduzir ideias, não palavra por palavra. Por que? Por causa do tempo.

Pela minha experiência, os textos em inglês costumam, em sua maioria, ser mais curtos que os equivalentes em português, que por sua vez são mais curtos que os de espanhol. Talvez por conta dos radicais latinos, em geral mais longos que os anglicanos, ou talvez sejam as contrações da língua de Shakespeare, vá saber. Isso em discurso falado faz grande diferença. Se o intérprete tiver que traduzir “about 5 days“, ele vai dizer “cerca de” para não ter que falar um imenso “aproximadamente“. E aí caímos no problema da literalidade, essa bendita.

Clientes de tradução gostam dela. Desconfio que seja porque, ao não dominar completamente o idioma estrangeiro, qualquer palavra parecida que eles entendam no texto traduzido dá a sensação de que estão pagando pelo certo, sei lá. Só sei que o pessoal sempre prefere um eventualmente quando tem “eventually” e aí a gente tem que dar essa aula de inglês para eles também.

Mas, Marina, o que você tem contra a literalidade?

Nada. O problema é que nem sempre se pode ser literal, simples. Gatos em inglês têm nove vidas, não sete. A ordem de certos elementos textuais, como “em 1977“, por exemplo, tem posição certa em inglês. Dizer que algo “faz mal” em espanhol é dizer que “es malo” (é mal). Eu acho que uma boa tradução preza pela naturalidade do texto-alvo, o que a literalidade dificulta bastante.

Ao fazer sua tradução, o ideal é pensar como o seu leitor. Mesmo quando você estiver vertendo para o inglês, por exemplo. Ligue seu botão no modo “Rainha da Inglaterra” e fale como ela fala que, como anglófona (junto com o dono do pub, o caipira do Kansas, o surfista da Austrália), é a sua meta de leitor. E eles não falam nem um pouco igual a você, né?

Fale a língua que o seu cliente quer ouvir. Simples assim.

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