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Como aprender sobre tradução com seriados

Marina Borges / 27 de junho de 2017
Frank Underwood parabeniza seus tradutores :)

Interessado em saber como aprender sobre tradução com seriados? Senta que lá vem a história. Terminei semana passada a temporada mais recente de House of Cards, seriado exibido pela Netflix. Que satisfação ver a alta qualidade da tradução nas legendas! Ficam registrados aqui meus parabéns em público para Leandro Woyakoski e Aleksandra Maria Domke, que souberam driblar as armadilhas das falas de personagens tão complexos, que vivem uma vida de constantes debates e negociações.

O seriado apresenta muito conteúdo implícito, muitas palavras que não são ditas. Os tradutores também souberam superar de maneira estupenda trocadilhos, figuras de linguagem e referências. Tudo isso em relação aos EUA, para um público não necessariamente conhecedor da cultura e língua locais. Duas situações específicas, bem costuradas no roteiro, foram magistralmente superadas. Queria poder dar exemplos, mas como sou contra spoilers, por favor assistam e avaliem por conta própria.

Chuchotage

Nesta temporada, especificamente, o seriado apresentou uma cena de encontro de autoridades. Vimos na tela um exemplo típico de interpretação (a tradução realizada de modo verbal, não escrito) da modalidade chuchotage, ou seja, interpretação simultânea em voz baixa. E você achando que não tinha como aprender sobre tradução com seriados, né? No caso em questão, a autoridade que ouvia a interpretação era falante de um idioma bem exótico, motivo pelo qual só ele precisava desse serviço. Daí a escolha dessa modalidade e não do uso de cabines, como na tradução simultânea, por exemplo.

Com um número tão restrito de ouvintes, é possível ao intérprete traduzir individualmente, literalmente ao pé do ouvido. Sem ter a necessidade do uso de equipamento de áudio, é uma modalidade bastante utilizada em encontros públicos de autoridades. Ela funciona com até três ouvintes (mas na melhor das hipóteses com no máximo dois)  – diz Valerie Taylor-Bouladon, em seu ótimo livro Conference Interpreting Principles and Practice.

Mikhail Gorbachev e Ronald Reagan com intérpretes realizando chuchotage durante uma conferência de imprensa em Geneva em 1985

Um intérprete preparado vale por dois

Mas intérprete que é intérprete está sempre preparado, portanto a recomendação para a realização de chuchotage demanda um bloco de notas e, em consequência, uma combinação com a modalidade consecutiva. Ao anotar o que está sendo dito, a memória do intérprete não o trai tão facilmente e toda informação de extrema importância em um evento desse nível é transmitida corretamente. Números e siglas, em especial, são extremamente traiçoeiros.

Veja, então, que o intérprete dessa modalidade é uma ponte de linguagem entre um país e outro. No mais alto nível, literalmente.

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