O ingrato trabalho freelance às vezes nos coloca em situações inconvenientes de espera de pagamento. No mundo apressado em que vivemos, é comum os clientes não passarem de antemão seu cronograma financeiro, quando o têm. Muitos iniciantes ficam receosos sobre como cobrar educadamente, visto que dinheiro ainda é um tabu na nossa sociedade e pode causar uma saia justa.

Recomendo desde o princípio da negociação estabelecer termos de pagamento claros: frequência e meios de transação, principalmente. Desse modo, você pode embutir na sua tarifa os impostos da emissão de nota fiscal, a taxa do PayPal ou do DOC.

Também é sempre bom ter por escrito (contrato, e-mail, print de Whatsapp, etc.) o que vocês acordaram. Em uma eventual necessidade de recorrer aos meios legais, essa será a prova de que o cliente te deve algo mesmo.

Mas suponhamos que no caso tudo foi acordado às claras e o dinheiro só está atrasado, mesmo. Que o cliente só pode estar com problemas, não é possível, apesar de não querer atrapalhá-lo, preciso mencionar esse assunto sem soar como um morto de fome.

Fácil, são muitas as opções. Aproveite que o meio escrito nos permite ser mais diretos que o comum e use das seguintes táticas:

1 – Dúvida atroz

“Olá Fulano. Ainda não registrei o pagamento da nota emitida do último dia 15. O pagamento é 15 dias corridos ou 15 dias úteis após a emissão da nota?”

2 – Preocupação genuína

“Olá Beltrana. Ainda não registrei o pagamento, está tudo ok? Deu algum problema?”

3 – “Ai que desorganizada eu sou”

“Olá Cicrano, tudo bem? Pode me passar uma posição sobre o pagamento dos últimos dois trabalhos, para que eu possa me organizar por aqui?”

E não se preocupe que sempre vai ocorrer algum problema de banco, algum celular não será escutado, possivelmente até uma notificação extra-judicial será necessária. Não é nada pessoal, é só o jeitinho brasileiro mesmo.

Frank Underwood parabeniza seus tradutores :)

Terminei semana passada a temporada mais recente de House of Cards, seriado exibido pela Netflix, e que satisfação ver a alta qualidade da tradução nas legendas. Ficam registrados aqui meus parabéns em público para Leandro Woyakoski e Aleksandra Maria Domke, que souberam driblar as armadilhas das falas de personagens tão complexos, que vivem uma vida de constantes debates e negociações com muito conteúdo implícito, muitas palavras que não são ditas.

Os tradutores também souberam superar de maneira estupenda trocadilhos, figuras de linguagem e referências dos EUA para um público não necessariamente conhecedor da cultura e da língua. Duas situações específicas, bem costuradas no roteiro, foram magistralmente superadas. Queria poder dar exemplos, mas como sou contra spoilers, por favor assistam e avaliem por conta própria.

Nesta temporada, especificamente, o seriado apresentou uma cena de encontro de autoridades. Vimos na tela um exemplo típico de interpretação (a tradução realizada de modo verbal, não escrito) da modalidade chuchotage, ou seja, interpretação simultânea em voz baixa. No caso em questão, a autoridade que ouvia a interpretação era falante de um idioma bem exótico, motivo pelo qual só ele precisava desse serviço.

Sendo um número tão restrito de ouvintes, é possível ao intérprete traduzir individualmente (literalmente ao pé do ouvido), sem necessidade do uso de equipamento de áudio. É uma modalidade bastante utilizada em encontros públicos de autoridades, que funciona com até três ouvintes (mas na melhor das hipóteses com no máximo dois) – diz Valerie Taylor-Bouladon, em seu Conference Interpreting Principles and Practice.

Mikhail Gorbachev e Ronald Reagan com intérpretes realizando chuchotage durante uma conferência de imprensa em Geneva em 1985 (fonte: https://br.pinterest.com/pin/389491067745491232/)

Mas intérprete que é intérprete está sempre preparado, portanto a recomendação para a realização de chuchotage demanda um bloco de notas e, em consequência, uma combinação com a modalidade consecutiva (podemos falar dela em outro post). Ao anotar o que está sendo dito, a memória do intérprete não o trai tão facilmente (números em especial são extremamente traiçoeiros) e toda informação de extrema importância em um evento desse nível é transmitida corretamente.

Veja, então, que o intérprete dessa modalidade não é um tradutor portátil, mas sim uma ponte de linguagem entre um país e outro. No mais alto nível, literalmente.

Ai ai, as coisas que a gente tem que escutar nessa vida.

Dia desses estava conversando com um rapaz e ele me disse, muito surpreso: “Não entendo como você ganha dinheiro como tradutora, todo mundo fala inglês hoje em dia”. Suponho que essa seja a ideia que a classe média brasileira com ensino superior tenha, mas olha, tenho novidades para vocês: um índice ínfimo de brasileiros fala inglês – 5%, segundo o British Council. Você também não fala inglês tão bem assim, não, hein, tô ouvindo daqui seu sotaque. Não pode rir do mexicano do último Star Wars, você nem sabe pronunciar people certinho, aposto.

Choque de realidade número 1.

Ah, mas por exemplo, não entendo como não contratam pessoas qualificadas para traduzir (insira aqui a especialidade favorita). Olha, um tradutor profissional de verdade é qualificado para traduzir qualquer coisa. Nada é intraduzível. “Ah, mas não soa como deve ser”. Perfeito, me passe um guia de estilo, suas preferências, um glossário. Melhor, eu faço o glossário para você aprovar, que tal? Sou muito boa nisso, adoro listas em ordem alfabética. Conversem, clientes, conversando todos nos entendemos.

Você acha que eu me interesso por traduzir algo que não me soa compreensível? Claro que não, queremos sempre oferecer o melhor texto final para sua satisfação, queremos que você traduza conosco novamente. Absolutamente tudo que eu traduzo me faz pesquisar um conceito novo, tenho até uma série de publicações no Facebook da Solarium que trata justamente disso. “Surgiu um termo aqui…” é uma compilação dos conceitos que cruzam o meu caminho, termos que eu ainda não conhecia e que me chamaram a atenção. Traduzir é aprender algo novo em todo trabalho.

Para os autos, outras reclamações comuns de clientes são:

“Vocês são careiros”. Os juramentados talvez, mas só porque quem define a tabela de preços deles é a junta comercial de cada estado. O cartório te cobra uma nota também e não vejo ninguém reclamando com o tabelião.

“Vocês traduzem mal os títulos de filmes” – novamente, estamos livres dessa culpa. Essa manga não é nossa, e sim do pessoal do marketing. Quem decide tradução de título de filme no Brasil é a distribuidora dele.

Respeitem os tradutores, sim? A gente é super bacana e te explica em português quase tudo. Em caso de dúvida, a gente consulta os especialistas.

 

Olha, o ofício de tradutor é, ao meu ver, dos mais interessantes.

Primeiro porque você convive com mais de uma cultura, descobre fatos interessantes sobre elas e, ainda por cima, aprende a valorizar seu idioma materno vendo o trabalho que dá para o pessoal aprendê-lo depois. Um bom tradutor não necessariamente domina sua língua de trabalho, mas sim é exímio no seu idioma materno. Afinal de contas, é o que ele vem praticando a vida toda.

Ok, tudo muito bom, mas olha, eu falo inglês (espanhol, francês, japonês, russo – insira aqui sua preferência) muito bem, não posso começar a trabalhar com isso?

Tradução tem dessas. Não sendo um ofício regularizado como a medicina ou a advocacia, não é preciso ter formação específica na área para trabalhar com isso. Grandes tradutores nunca tiveram uma aula de tradução na vida, então se você está vindo de outra área, não se preocupe.

Minha ressalva, no entanto, é: tem certeza que seu conhecimento do idioma estrangeiro é bom assim? Eu me achava uma exímia falante de inglês quando passei no vestibular para Letras-Tradução na UnB. Eu tinha 18 anos, a gente é metido a besta nessa idade, né? Na primeira aula – Inglês – Compreensão de Textos Escritos 1 – a professora passou um artigo da Newsweek e eu vi que não era bem assim.

Mas como assim?

Simples, inglês não é minha língua materna. Eu sei de cor poemas e canções infantis brasileiras, gírias, palavras rebuscadas dos livros de Machado de Assis que tive que ler na escola – porque nasci e fui criada no Brasil, falando português. Deixe-me dar exemplos práticos:

  • Uma professora argentina que tive logo que chegou ao Brasil não sabia o que era Capitu nem que música era essa tal de Taj Mahal;
  • Quem não é brasileiro não vai entender que o “poetinha” é o Vinícius de Moraes;
  • Uma colega inglesa uma vez quis me falar que meu chefe era gente muito fina, veja bem, gramática perfeita, mas como explicar para ela que gente fina nunca é flexionado?

A graduação em tradução me deu ferramentas infinitas de como aprimorar meu conhecimento. E olha que nem tive aula de tradumática, fui aprender sobre CAT tools muito tempo depois. Mas macetes como ver como é um rótulo de xampu em inglês antes de traduzi-lo livremente do português eu aprendi lá. Ou suprimir pronomes pessoais em português, já que eles não fazem tanta falta como em inglês. Poderia escrever cem posts falando sobre toda a bagagem que adquiri na UnB.

Mas eu tenho certeza que vou me dar super bem!

Não duvido. Mas esteja preparado para qualquer tipo de texto. Não é porque você legenda suas séries favoritas que alguma vez na vida não vai traduzir um contrato de afretamento, um manual de gerador eletrônico, um relatório de SMS. Tradutor traduz de tudo e um pouco mais. Exceto quem se especializa em determinada matéria e só se concentra nesse tema.

Meu calcanhar de Aquiles, por exemplo, é economia. Não gostava na faculdade, não gosto de ler no jornal – se chega uma tradução de finanças para mim você acha que eu recuso? Nada, manda para cá esse balanço patrimonial que eu mato no peito e, com a ajuda dos dicionários técnicos, meus colegas e o maravilhoso Google, faço um gol.

Podia fazer um golaço, mas faço só um gol modesto, mesmo. Agora me manda um técnico-científico para você ver se eu não viro o Tostão.

 

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Este ano estou vendo o ofício da tradução com outros olhos. Completei um ano de tradutora microempresária e vejo que traduzir de modo profissional é bem distinto do que o senso comum pensa.

Eu gostaria de ter um emprego em que eu só me preocupasse com uma pequena lista de:

  • regras da nova ortografia;
  • falsos cognatos;
  • expressões jurídicas recorrentes;
  • meu deus do céu o que significa essa sigla e lá na página 156 explicam, ufa;
  • mas como é que eu vou converter esse pdf cheio de assinatura?;
  • como assim já lançaram a versão 2017 dessa CAT que ainda estou pagando a versão 2015;
  • naturalmente não vou considerar as referências, cliente;
  • quem é essa criatura que me adicionou no Linkedin?;
  • Meu Deus, o backup, esqueci o backup;
  • Windows, isso não é hora de atualizar.

Mas agora com grandes poderes vêm grandes responsabilidades, como:

  • Mas como assim o cliente depositou menos que o valor da nota?;
  • Esse tradutor está de sacanagem comigo com esse atraso todo;
  • Contador, atende esse telefone, vai;
  • Claro que eu estou disponível, cliente, só tenho outros cinco documentos para o mesmo prazo, onde você estava semana passada quando eu estava free as a bird?
  • Oi, cliente, por que você parou de responder depois que eu mandei o orçamento?;
  • Publicações diárias em redes sociais para manter o interesse de seu público;
  • Networking é mesmo necessário?;
  • Ai meu Deus quantos eventos, tenho que organizar minha agenda;
  • Tenho que organizar pagamentos de impostos;
  • Tenho que organizar pagamentos de tradutores;
  • Tenho que organizar pagamentos de revisores;
  • Tenho que organizar pagamentos de diagramadores.

Mas olha, não troco essas listas por nenhuma outra.

Feliz dia para todos nós!

Antes de mais nada, mil desculpas pelo abandono do blog. Foi um primeiro semestre bastante agitado e corrido, mas prometo que vou sempre tentar arrumar um tempinho para escrever algo por aqui.

Afinal de contas, venho recebendo muitos emails de leitores me pedindo dicas sobre como entrar no mercado de tradução. Que bacana, muito bom saber que sou lida e posso ajudar novatos a se aventurarem. Por sinal, tenho uma novidade bem bacana para divulgar, cadê a imagem?


mentoria

A Abrates, a Associação Brasileira de Tradutores e Intérpretes, lançou recentemente um programa de mentoria chamado “Caminho das Pedras”. Já existe até a página no Facebook dessa iniciativa tão legal. O programa “busca unir a experiência de tradutores veteranos e a vontade de aprender de tradutores novatos para ajudar a formar colegas mais bem preparados para aspectos práticos do mercado de tradução e interpretação”.

Quer jeito melhor de se aventurar no mercado em que você está começando? Participam desse programa profissionais de renome, com o respaldo da maior associação de tradutores do país. Se você está interessado em levar essa carreira adiante, me parece ser a melhor opção disponível atualmente.

Outra iniciativa bem legal que vai acontecer em setembro, mas dessa vez só para os cariocas, é o 1º Barcamp de Tradutores e Intérpretes no Rio de Janeiro – mais uma imagem, se faz favor:

barcamp

 

A Luciana Frias, que conheço de outros carnavais e sei que é extremamente profissional, está organizado, junto com a Deborah Szczerbacki, o Paulo Noriega e Isadora Veiga, um encontro de tradutores no Rio. Vai ser em Copacabana, dia 3 de setembro, e promete reunir profissionais (experientes ou não) para desenvolver um grupo tão frutífero como o que já existe em Curitiba, o TICWB. A página do Facebook do evento também já está na ativa.

Eu vou estar lá, com certeza, por que você que me lê também não aparece?

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Filosofando dia desses, cheguei à conclusão que ser um bom tradutor é, antes de mais nada, assumir suas escolhas. Sendo uma atividade subjetiva, muitas vezes temos mais de uma opção de tradução de um termo, então bater o pé e decidir que vai ser isso é uma atitude consciente. Uma escolha que você fez.

O que acontecia muito comigo quando era iniciante era não saber pesquisar a fundo determinado termo e, na falta de tempo, escolher o que dava pro gasto. Com o tempo você acaba descobrindo novas fontes e referências e fica mais seguro para dizer, com propriedade, que traduziu o termo x por y porque está escrito no site tal, no jornal tal, na publicação de respeito tal. Obviamente, existem os termos que simplesmente não existem na sua língua-alvo, exigindo uma decisão distinta. Afinal de contas, traduzir não é uma atividade exata como matemática, o tapume que usamos aqui para cobrir uma obra não é usado naquele país, pelo menos não é feito do mesmo material. O equipamento para esportes na neve não tem importância aqui nos trópicos porque eu não sei do que você está falando e tantos outros exemplos.

Daí a importância da adaptação na tradução, recurso esse que depois do meu curso de intérprete aprimorei bem mais. O tradutor tem muito mais tempo e recursos que o intérprete para pensar numa solução ideal. Mas por que você vai quebrar a cabeça procurando a tradução de queijo coalho e seguindo UM link que propôs uma tradução meia boca se pode simplesmente explicar, na sua língua-alvo, que esse queijo chamado coalho é meio durinho e mais salgado que a média?

Ao traduzir, temos que ter sempre em mente quem vai ler o seu texto no final das contas. Leve seu leitor em consideração, a cultura da língua dele, a lógica do pensar dele. É mesmo importante eu traduzir MS por State of Mato Grosso do Sul se o assunto é sobre populações indígenas? Não posso omitir essa sigla sem sentido ou o nome imenso em uma língua tão não familiar? Do mesmo modo na direção contrária (para os sul mato-grossenses não se ofenderem), as iniciais dos middle names de americanos vão fazer tanta falta assim em português?

Terminou de traduzir? Leia seu novo texto com os olhos do seu leitor. Veja que informação está sobrando ou faltando. Não é uma questão de trair o autor (a culpa é sempre nossa, deixa pra lá), mas sim de entregar um bom produto para o seu leitor final.

Já faz um tempo que queria escrever um post comparando as duas CAT Tools com as quais tenho maior familiaridade, para ajudar quem quer se aventurar com uma delas e saber mais sobre os recursos de cada uma. Não me entenda mal, aqui você não vai achar nenhuma descrição completa de comparação entre as duas ferramentas, simplesmente minhas observações pessoais como usuária intermediária de ambas. Para melhor descrição técnica, leiam esse artigo bem mais completo.

Já escrevi aqui no começo do blogue um comparativo entre Trados e Wordfast, mas hoje em dia deixei o Wordfast de lado, por ele não me oferecer os mesmos recursos que os outros dois programas. Mas CAT Tool é igual pasta de dente: você usa a que melhor atender às suas necessidades.

Mais fácil eu explicar, então, minha trajetória com esses programas. Comecei com o Wordfast Classic, que funcionava (tempo verbal “não uso mais, vai que não é mais assim?”) acoplado ao Word, com o uso de três glossários e três TMs por vez.  — O memoQ e o Trados já superaram esses quesitos, posso usar muito mais glossários e TMs. — Para traduzir documentos de outra natureza, tinha que converter os arquivos ou usar algum plug-in (PowerPoint e PDFs, em Excel ele funcionava). Isso quando eu trabalhei in-house em uma agência.

Quando passei a trabalhar por conta própria, comprei uma licença do Wordfast com validade de três anos, que pode ser renovada por 50% do valor por outros três anos, veja os detalhes aqui. Os brasileiros também têm direito a um desconto de 50% para licenças individuais, então atualmente o Wordfast sai a 250 euros (pouco mais de 1000 reais na cotação de hoje). Falo sobre os detalhes de compra sem problemas porque pensava eu que ia perder minhas TMs se mudasse de CAT, mas aprendi com o tempo que todas elas leem o formato .tmx, então não tenha medo de perder seus arquivos. Mas voltando à historinha…

A partir do momento que passei a me inteirar mais sobre CAT Tools e entrar no mercado freelance, vi que o Trados era um programa sempre exigido pelas grandes agências. Comprei, junto com uma amiga, a licença do Trados 2011, que tem a grande vantagem de ter um representante no Brasil – a Reality Soluções – que parcela no cartão, além de oferecer treinamento para uso do software a preços justos. Uns seis meses depois, lançaram o 2014, que atualizamos por metade do preço da licença e que é o que uso desde então. Ainda não me aventurei a atualizar para o 2015 porque me irrita muito essa postura de vender a licença sem validade, mas em compensação lançar versões novas todo ano, com uma ou outra funcionalidade. Prefiro não pagar nada e salvar meus .docx em .doc para o Trados 2014 conseguir ler.

sdl tradosMuita gente não gosta do Trados principalmente pela administração de glossários, que é feita em um programa em separado, o MultiTerm. Isso não me incomoda em nada, sinceramente, acho até interessante poder administrar os glossários em um ambiente exclusivo. O essencial para uso no programa mesmo, na hora da tradução, que é incluir e editar termos, o Trados faz muito bem. Não faltam tutoriais online para te ajudar a fazer qualquer coisa no programa. 

O que o Trados deixa a desejar, então? Não sei se resolveram isso no 2015, mas o que mais me irrita é não conseguir adicionar um arquivo a um projeto já aberto. Colocar um Wordzinho de nada que o cliente mandou por último para usar na mesma TM, com os mesmos glossários? Meu Trados não consegue (ou o problema deve estar entre o computador e cadeira, sabe-se lá). O esquema deles de gerenciamento de pastas, que você pode editar por conta própria, também me agrada muito – a possibilidade de personalizar a área de trabalho para o tamanho e cor de fonte que você quiser, os comandos de pre-translate – são esses os destaques da minha experiência de usuária.

Ao compará-lo com o memoQ, no entanto, o Trados deixa a desejar nos seguintes quesitos:

  • Organização de TMs. Para quem tem TMs de outras CATs, como era o meu caso, o memoQ supera em muito o Trados na hora de alinhar arquivos (original e tradução) e salvá-lo no Live Docs para depois transferi-lo para uma TM. Não me entenda mal, os dois programas conseguem alinhar os segmentos de cada arquivo se baseando em termos-chave e permitem que você mesmo defina as conexões, editando, mas o Live Docs faz isso de maneira mais eficaz (são bem menos conexões de segmentos para editar);
  • Predictive Typing. O memoQ tem essa ferramenta maravilhosa de adivinhar o que você quer digitar, se baseando em termos que se repetem ao longo do texto ou que estão no glossário. Que eu saiba o Trados só faz isso com termos do glossário ou do tal AutoSuggest, que suponho que seja uma ferramente semelhante mas que a minha experiência de usuária ainda não me permitiu ter uma provinha porque o AutoSuggest só é ativado a partir de uma TM com mais de 10 mil segmentos (não tenho ainda nenhuma assim);
  • Tags. Malditas, odeio esses bichinhos invasores do texto. Tem uma dica bem bacana aqui de como se livrar delas, mas caso elas acabem aparecendo na sua tela de trabalho no Trados ou memoQ, o segundo resolve elas de maneira bem mais simples na aba “Edit” com o comando “Copy Next Tag Sequence“. Um clique e o cursor na posição certa e tudo resolvido. Provavelmente o Trados tem um comando parecido, mas deve estar bem no cantinho porque na hora da pressa da entrega ainda não encontrei e recorro ao copy source to original, mesmo.
  • Preview. Na área de trabalho do memoQ, o texto vai mudando de idioma à medida que você traduz. Então fica ali, na sua frente, o contexto inteiro, que você pode analisar se está fluindo bem. Acho essa ferramente o grande destaque do memoQ, minha vida de tradutora foi bastante afetada por ela. Espero sinceramente que todas as outras CATs estejam adotando por aí.

memoqPor sua vez, o memoQ me irrita sobremaneira na hora de começarmos um projeto (é uma chatice salvar pastas lógicas como a do Trados, que faz uma pros originais, uma pra TM e outra para a tradução, que você pode salvar facilmente no seu pen drive). O memoQ sempre quer salvar no C:, e se você tenta editar a localização dos arquivos, acaba com uma pasta no pen drive cheia de arquivos .mtx e .mtm que não fazem o menor sentido. Deveria ser um pacotinho mais lógico como o Trados. A falta de uma visualização do número de palavras e porcentagem de conclusão, como é o Trados, lá no cantinho, no esquema “100 palavras (85%)” me faz bastante falta no memoQ. Novamente, pode ter sido um problema meu mesmo não ter achado onde editar isso na minha área de trabalho, mas para mim só aparece uma coisa assim:

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Compara com a simplicidade do concorrente:

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Quanto ao doloroso tema “preço”, os dois programas são importados e o dólar está aí nas alturas, mas o Trados leva vantagem por ter um representante nacional que facilita o pagamento. O memoQ atualmente está saindo a 372 euros (R$ 1645,00 na cotação Google de hoje), com 1 ano de suporte e atualizações, podendo ser usado em dois computadores diferentes. O Trados 2015 está saindo, até dia 29/01/2016, a R$ 1880,00, também podendo ser usado em dois computadores diferentes e podendo pagar em 6 vezes sem juros. Divida a licença com um colega tradutor, é a minha dica. Eu sei que o custo é alto, mas ele é pago com seus primeiros trabalhos, pense assim. Ambos tem trial de uso de 30 dias, é o mês que você tem para arrecadar a grana.

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Vou explicar uma questão essencial para os profissionais liberais como nós, tradutores, caso o pessoal aí ainda não tenha percebido. Indicação é absolutamente tudo nesse mercado.

Se você ainda não tem motivo para realizar o seu trabalho bem, pense que o cliente que você está atendendo hoje vai, daqui para o resto da vida:

  • tomar um chope com o pessoal
  • ao dentista
  • a uma festa de família
  • encontrar amigos de colégio
  • encontrar ex-colegas de faculdade
  • frequentar a academia
  • conhecer gente nova o tempo todo

e pode ser que alguma dessas pessoas vá perguntar para ele se por um acaso ele(a) conhece um(a) tradutor(a).

Pronto, tá aí a lembrança do seu trabalho na cabeça do seu cliente. A rapidez da resposta do seu e-mail, a qualidade da revisão, o cuidado com o corretor ortográfico, a facilidade da sua negociação.

Você mesmo quando precisa de algum tipo de serviço não pede indicação de amigos ou familiares? Pois então. Igualzinho.

Vamos ter uma boa reputação para ganhar indicações, pessoal. Ano que vem os gringos tão chegando aí.

 

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Em dúvida? Angustiado? Sem ideia sobre como começar a traduzir e entender essas tais CATs? Vocês está no lugar certo.

Hipótese: você recebeu um trabalho para traduzir, em .doc, precisa devolver em .doc. Vai abrir o Word e começar a traduzir na linha de baixo? Pare onde está. Isso é coisa do tempo da sua avó.

Se nunca tiver feito isso antes, visite os sites do Wordfast Anywhere ou do Memsource. São duas plataformas online de inscrição gratuita que funcionam muito bem como CATs, apesar de terem recursos restritos pela condição gratuita. Ali, você vai encontrar a estrutura básica de uma CAT:

O documento: você vai fazer o upload do documento a ser traduzido e indicar as línguas de origem e final. Ele vai ser dividido em segmentos de tradução, em geral frases, pequenos parágrafos ou títulos. Esses segmentos vão ser armazenados na…

– …TM, translation memory, a velha memória de tradução. Você vai criar essa TM para que os segmentos do seu texto sejam armazenados e possam te poupar trabalho de traduzi-los. Explico: vamos supor que seu documento tem um índice. No começo você vai traduzir o título do índice, ok, mas quando o título surgir novamente no meio do texto, não vai ser necessário traduzi-lo novamente – a TM vai “puxar” essa sua tradução inicial. Também pode puxar segmentos quase iguais, 75% iguais, por exemplo, para te economizar umas boas tecladas. Tudo depende da configuração que você fizer nela. Outro aspecto a se configurar são os…

– …Glossários. Vamos supor que esse primeiro documento esteja dentro de uma série de outros que ainda virão a ser traduzidos. Monte um glossário desse projeto, assim você não precisa gastar energia lembrando se traduziu contrato por agreement ou contract, por exemplo. E quando eu digo não precisa, você não precisa mesmo, porque a CAT vai te alertar que aquele termo está no glossário e só vai ser necessário apertar um botão para inserir o termo no segmento. Olha a economia de tecladas novamente. Ok, trabalho terminado, próximo passo…

– …Corretor ortográfico. Na maioria das CATs e no Word, o comando da correção ortográfica é o F7. Aperta como quem não quer nada e surpreenda-se com a quantidade de errinhos que passam. É impressionante.

Pronto, agora é só exportar o seu documento no formato original que você vai ter uma TM abastecida, um glossário para uso em diversas outras ocasiões e seu documento perfeito, só com o detalhe de estar em outra língua. Talvez seja o caso até de considerar o investimento em uma CAT Tool paga (Wordfast? Trados? memoQ?) que têm versões trial em média durante 30 dias e olha, bem mais recursos legais.

Mas isso é assunto pro próximo post ;)